Josué Guimarães
- Almanaque de Canela
- 5 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Josué Marques Guimarães nasceu em 7 de janeiro de 1921, em São Jerônimo, no interior do Rio Grande do Sul. Ainda criança, mudou-se com a família para Rosário do Sul, na fronteira com o Uruguai, cenário que marcaria sua imaginação e serviria de matéria-prima para personagens e atmosferas de vários de seus livros. Na adolescência, em Porto Alegre, aproximou-se do jornalismo e da escrita: fez jornal escolar, fundou grêmio literário, escreveu peças teatrais e começou a trilhar o caminho que o levaria às grandes redações do país.

Jornalista e homem público
Muito jovem, Josué iniciou a carreira no Rio de Janeiro, em jornais e revistas, e depois passou por importantes veículos gaúchos e nacionais, atuando como repórter, redator, cronista, comentarista, ilustrador e diretor. Trabalhou em periódicos como Diário de Notícias, Correio do Povo, Folha da Tarde, Última Hora, Zero Hora e na revista O Cruzeiro, criou o jornal satírico D. Xicote e foi correspondente na União Soviética, na China, em Portugal e na África, acompanhando de perto a Revolução dos Cravos e as lutas por independência das colônias portuguesas.
Na política, foi eleito o vereador mais votado de Porto Alegre, pelo PTB, chegando à vice-presidência da Câmara Municipal. No exercício de seu cargo, entre outras iniciativas, idealizou o Salão de Artes da Câmara, criado pela Lei nº 940, de 1952, e chefiou o gabinete do então deputado federal João Goulart, trabalhando na Secretaria do Interior e Justiça do Rio Grande do Sul.
Também dirigiu a Agência Nacional entre 1961 e 1964, já com Jango na presidência da República. Defensor da democracia, foi perseguido pela ditadura militar após o golpe de 1964 e optou por viver na clandestinidade, afastando-se dos cargos oficiais e mantendo-se com trabalhos em publicidade, consultoria, livraria e colaborações na imprensa.

O escritor que começou “tarde”
A estreia na ficção aconteceu apenas aos 49 anos, com o livro de contos Os ladrões, lançado em 1970 e premiado no Concurso de Contos do Paraná. Em menos de vinte anos, Josué publicou cerca de vinte livros entre romances, coletâneas de contos e obras
infantis, consolidando-se como um dos grandes nomes da literatura brasileira. Entre as obras que marcam sua trajetória está a série A ferro e fogo (1972 e 1973), pensada como uma trilogia sobre a colonização alemã no Rio Grande do Sul, cujo terceiro volume ficou inacabado após sua morte, além de Camilo Mortágua e de livros para jovens leitores como A casa das quatro luas e Meu primeiro dragão, que ajudaram a formar novas gerações de leitores.
Josué e Canela
Na década de 1980, já consagrado como romancista, Josué escolheu Canela como refúgio afetivo e criativo. A casa no Laje de Pedra ficou pronta em 1983, um espaço pensado para ser abrigo de silêncio, inspiração e trabalho. Embora não tenha conseguido viver aqui de forma permanente, foi um veranista apaixonado pela cidade: caminhava pelas ruas, comprava no comércio local e, sobretudo, buscava boas conversas, como quem colhe histórias ao vento.
Josué faleceu em 23 de março de 1986, em Porto Alegre, vítima de câncer intestinal. No mesmo ano, a Câmara Municipal de Porto Alegre realizou sessão solene em sua homenagem, e a Biblioteca Municipal da capital passou a levar seu nome, reconhecendo seu papel como homem público e intelectual.
O vínculo com a Serra, porém, continuou por meio da esposa, Nydia Guimarães, que se mudou em definitivo para Canela em 1989, trazendo consigo um legado cultural precioso. Foi graças a ela que parte dessa herança literária e humana se integrou à comunidade, permitindo que os canelenses compartilhassem a memória e a presença simbólica de um dos grandes escritores gaúchos. Aos poucos, a cidade incorporou esse legado à sua própria vida cultural: Nydia foi uma das fundadoras da Fundação Cultural de Canela, e a feira literária local adotou o nome Feira do Livro Josué Guimarães.
Assim, além de presença fundamental na literatura brasileira do século 20, Josué permanece ligado a Canela como referência de leitura, memória e imaginação. Ao dar seu nome à feira do livro, a cidade assume o papel de guardiã desse legado e mantém viva a obra de um autor que sempre acreditou na palavra como forma de compreender e transformar o mundo.






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